quinta-feira, 18 de junho de 2009

arte digital: fátima queiroz





jura secreta 78




mesmo se não fosse ontem agora o que eu faria com o poema mesmo se não fosse flor ou faca até mesmo fosse farta a festa e ficasse lambuzando os dedos com o mel das tuas pernas e as penugens como mar de purpurinas da canção que ouvi ontem mesmo do Carlos Gomes quando fala também de Gananga Rei e o multiculturalismo bantu desta nova nação áfrika e outra parte da banda kizomba e se não fosse sol lua e o teu espelho de conchas mar travessias negreiros e esse teu corpo de deusa musa do fogo e da farra fosse sexta feira ou sábado e hoje não fosse quinta entre currais e estéticas minas de montes claros na sagração das entranhas montanhas ou vales e o cinza tingindo a tarde se não fosse fios de nervos Adélia e outros poemas o rock and roll na agulha que hoje não temos mais a praia suja de ossos destroços dos aviões não fosse essa tarde de junho e outras de maio se foram desmaio da Úrsula maior folia de reis não vieram debaixo da tua janela e essa rosa na boca querendo querendo querendo não fosse flor fosse espinho encravo cravado no peito e o pulso que ainda pulsa revejo Titãs no vinil Viviane do espírito santo Mosé de carne de chão poemas de espermas e barro lavadas palavras sujas fratura exposta nas mãos não fosse o sangue na veia poemas que não calaram e o caldeirão a guerrilha jornais de poucas notícias mentiras que nos trouxeram as línguas falsas os fakes os ternos gravatas não sábios grafando palavras sem nexo no olho da rua de Vênus na corpo da mesa de marte como se fossem lunáticos seres de um outro planeta ou de cidades distantes como se a nossa não fosse campos dos goytacazes
* * *

Mamãe é brega mas é xique
Decididamente mamãe não ouve e nem gosta do Rei Roberto Carlos porque não tem medo de lobisomem e desde os tempos em que lia José Cândido de Carvalho sabe muito bem quem são os Coronéis mamãe tem 78 Anos mas não perde tempo diante da TV com o Encravo e a Rosa, prefere assistir no TNT O Nome da Rosa, filme e fuma um baseado quando lê Umberto Eco e passa a contar o que sobrou. Mamãe é foda cultiva no jardim flores e trombetas e as vezes sai pelos campos catando cogumelos e ervas cidreiras dizendo que o chá é bom para o fígado, pois tem comido muitas flores que lhe dão indigestão. Mamãe ouve Raul Seixas e saber décor toda letra de Ouro de Tolo, e acha que não está com “a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”. Ela vai pra rua e solta os bichos 4 gatos recém paridos que amamenta com carinho como se outros filhos fossem mamãe usa um crucifixo de madeira no pescoço põe alho no bolso e diz que é para espantar as cobras e lagartos que vez em quando aparecem no seu quintal pedindo votos. Assim que a noite chega ela reza pra são Jorge Ogum Oxossi e todos os caboclos da mata e da cidade porque acha que na cidade é que estão todos os bandidos de colarinho branco mamãe não dá sopa nem merenda muito menos bolsa escola cheque cidadão e outros baratos e diz não acreditar em esmola já leu até Bertold Brecht e tem pena dos analfabetos políticos pois acredita que é aí que se encontra a grande miséria humana com que os aproveitadores continuam a se alimentar nos períodos eleitorais para enriquecer suas contas bancárias cada qual com seus laranjas. Esperta que só ela mamãe aperta contra o peito uma estampa de Jesus Cristo e fala: “esse é o cara” não enganou o povo com passagem a 1 real taxa de luz bolsa família bolsa emprego ou bolsa escola, deu passagem de graça, e não precisou se disfarçar com outros nomes deu a cara a forca e não nasceu pra ser otário como jogador de futebol.


Mama Brega Afronta em Brazílica

enquanto os dinossauros passeiam no palácio crianças pastam no esgoto a céu aberto dentro da escola sem lei que proíba a barbárie nem corrupto que se manifeste dentro da cidade o canal vomita fezes segundo por segundo nele despejadas enquanto ouvia sebastian moreno mama bravejava muito além da janela enquanto a tropofonia lhe entrava ouvido a dentro e seu corpo estremecia brazílica pereira em cornópolis dos goytacazes a faxineira
que arruma a casa como se a cidade fosse o quintal da lapa do encravo onde nem tudo são flores e mama sabe que os girassóis não cheiram rosas nem lírios nascem no jardim enquanto ela amamenta seus gatos como se filhos fossem e berra contra litle boy o filho da cachorra de guarus onde a miséria sub/humana sustenta os fantasmas da opereta pelos telhados de vidros gora aos quatro ventos morcegos e vampiros chupam comem roubam carne sangue nervos pernas braços mama não se entrega nem dá trégua aos evangélicos de plantão que tentam lhe vender inferno e céu como se ela não soubesse que ateus já foram e mateus agora bíblia entre os punhos vendem até a mãe o pai irmão o filho e o espírito que não tem decididamente mama não tem papas muito menos padres bispos nem igrejas sua fé é carnaval sabe que no corpo mora a fome mas também a farra a festa sua língua uma navalha sua dor uma floresta reparte o gozo e o fruto com suas plantas e bichos carlos Gardel Buenos Aires chorava no seu canto Nelson gonçalves mama ouve e seu vermelho é 27

Brazilírica Pereira: A Traição das Metáforas

entre a pele e a flor no asco com meia sola no sapato o meu vapor mais que barato industrial e infonáutico por entre os bronzes do teu pêlo entre o gozar cibernético em todo sangue magnético a minha carne pós poeira entre a flor e o vaso de barro na home page ou no carro na camisinha de vênus vírus H corroendo em vita plus ou na sala meu olho gótico TVvendo brazilírica lâmpada fala por um tanto ou tanto quase cento e dez em cada fase não sendo assim acaba sendo debaixo da sacada a escada torta pássaro sem teto acima do delírio coração de porco crava no oco da noite a faca cega punhal de cinco estrelas na constelação do cão maior por onde Úrsula passeia dédala de dandi deusa de Dalí lua de dadá no coração do pintor sem fronteiras acima do pé de abóbora debaixo do pé de cajá malásia não é aqui Espanha não além amar salvador não é Dalí a mulher que eu quero mesmo é uma Dedé que não dadá bia de Dante do inferno Itamarati Itamaracá constelação ursa menor pra dadá meu coração para Dedé não sou cantor quando quero quero mesmo espuma nylon pele tecido isopor por enquanto vou te amar assim em segredo como o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que não fiz e as brigas de amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato por enquanto vou te amar assim admirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade debaixo as solas dos sapatos o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato bagana acesa sobre do cigarro é sarro dentro do carro ainda ouço jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleando rock and roll pra colher lírios há que se por o pé na lama a sede pura fotosíntese do papel tem flor de lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santana com os espinhos da rosa de Noel.

Mama a Flor do Lácio

Escrevo: escraxo e a palavra escorre pela pele dentro os poros explode cores e mamãe no quarto quieta ouve Pink floyd não quer saber de rap hip hop música nas coxas adora o som psicodélico da abelha quando morde a flor me disse que papai cavaleiro makondo conta as lendas a raptou aos quinze em casa blanca e o vento levou a flor da pele quando beijos de cinema explode a carne útero materno as pétalas dos desejos como quando assim pela memória invade o lar dos inocentes mamãe não come massas nem tampouco gosta de mercados nem aplaude aquilo que não quer me explica que encravo é palavra suja e sempre soube que o demo anda de mãos dadas com o deus das cafetinas aspirina não me serve quando a dor é funda ainda assim o samba enredo da mocidade independente de padre olivácio provoca fundo a flor do Lácio sem lembrar padre Miguel mamãe recita a flor drummundo com sua língua cabralina e grafa desde os tempos de menina suas digitais pra por o nome nos papéis da sacristia muito cínica muito prosa quando falo em tua boca nunca quis ter casamento pulou os muros do convento pra fugir da hipocrisia chupa balas que você não chupa fala falas que você não fala e vomita o indgesto pra evitar a indgestão muito lúcida da cabeça seu barato atrás da porta esconde a sete chaves quando está de Chico com a língua por um triz como sempre diz que fez como sempre fez e faz
se traveste de Elis e solta um como nossos pais


Mama mama mama áfrica

Eu fui dá mamãe fui dá mamãe um beijo na Mayara aquela arara do rio grande santa clara clara mas não santa diaba de 7 bocas muita mais de 7 coxas muito mais sete mil línguas me devoram mama mama mama áfrica o leite eu mamo nela minha deusa de oxum e Ana das minas ogum que sou xangô que sempre fui Oxossi pagão bem sebes do oculto e dentro inconsciente lato não rasgo de mim o teu retrato não rasgo de ti os teus vestidos Mayara quando posso em minhas mãos estando quero beijos gozos incêndio corpos desastres fora do país onde vivemos estilhaços púrpuras lagos que não fomos aves bichos antas cavalos vacas todos pastam todos fumam nós bebemos do lícor de cada língua lúcifer dando beijos sobre as faces deuses e diabos corpo em transe anjos e demônios sobre as camas mama em mim mamo de ti o que escorre leite líquido leves brumas peles nomes dos oitenta que estivemos desde século aqui estamos famintos de arte de outros corpos de sede amor tais incertezas um dia claro é quase nunca este país que inda não veio a veia quando sangra na usina angra nuclear santa marina la cuba de la Riva El mar Fidel castro que não soy e esta américa tropical explode em mangue na avenida central do desespero

Um poema zil

ma ma a floresta rala as araras raras os papagaios nada quero descobrir a nova fala dentro das penas de um bem-te-vi dentro dentro as escamas de um peixe espada no cio das onças tigres lontras javalis e leopardos quero minha nova fala ma ma mata a dentro mesmo quando urbano sempre urbano entro em cada carne em cada pedra onde subo pau a pique Nick a pedra é rock a pedra é toque a pedra é barro duro e triturada é pó faz tempo muito tempo que não ouço joão Gilberto e ando tão desafinado que o dente lambe a fala e escava a lavra nova faz
tempo muito tempo que não falo ave palavra ave profana ave cio que não vejo o arrepio de um pássaro selvagem logo pós o pós mergulho em algum canto do rio essa selva estraçalhada
faz tempo muito tempo que não vejo em mim cidade goytacazes goyta city que não vejo em alvoroço alegria quando festa quando farra fausto sol de verão poesia e primavera tudo o que ja foi já era mesmo o hoje uma quimera uma espera insana e falsa de um presente que não vem
de um futuro absinto mas que saber o que sinto nada sinto sinto muito quer dizer eu muito minto minto muito tudo é pouco e o buraco quando esgoto na urbanidade do que falo com os dentes na ferida aqui tem tudo falta vida e a poesia foi vendida e o poema foi pro ralo

Telhados de Vidro aos 4 Ventos

sopra um vento forte às margens do Paraíba vem do sul ou vem do norte e sambando mamãe me disse - dou a minha cara a tapa se esse vento não vem da lapa - do convento de nossa senhora dos enterros das barbas do Ururau enchente dos afogados toneladas de peixes mortos em noites de carnaval e bois que nem sequer sabem o destino mesmo dentro do matadouro não sabem de pai João nunca viram mãe Maria só sabem o que o outro dizia sendo verdade a mentira nunca ouviram João Nogueira muito menos Pixinguinha nem Paulinho da Viola pois essa música não dá grana nem voto nas eleições pelo contrário essa música desperta o povo calado lhe ensina a fala que aki não fala e o falar grosso a saber que no tutano tem osso que a língua é ferramenta pro alvoroço faca afiada no pescoço na jugular de qualquer vento mas sopra um vento forte às margens do paraíba vem do sul ou vem do norte e disse mamãe no repique - dou a minha cara a tapa se esse vento não vem da lapa montado em cavalos alegóricos em santos de romaria até em cordeiros das índias como se o primeiro de maio fosse dois de fevereiro e a Mocidade de Padre Olívácio não fosse Oculta Independente no inconsciente coletivo e o povo que é muito vivo sacou a história da grana e as barganhas do vendaval e foi aí que o Santo Guerreiro Ogum de samba e terreiro triturou o Ururau

no quintal da minha casa tem uma planta sagrada debaixo do pé de manga espada tem um pé de limão cravo uma horta com alface e couve e alguns temperos caseiros que a minha mãe todo dia gosta de admirar as plantas que ficam crescendo as flores e suas sementes perto do muro da casa com tua energia solar como um poema que eu falo como quem brinca de pique e você não quer que eu explique o nome da minha rua que é uma rua só minha onde plantei minha casa durante noites de junho quando se faz lua cheia picasso foge da espanha com seus pincéis pioneiros e vai ali se encontrar com a sua musa primeira numa antiga cerâmica que conheceu na cacomanga no outono do patriarca em cem anos de solidão
nem froid nem sai de cima

antes que as metáforas entrelacem suas pernas como panteras feito nós quando nos amamos quero dizer que a vida inteira quis um poema de amor pensando em ti mesmo não sabendo que existias eu sou A Hora da Estrela e o que é que estou fazendo aqui se eu devia estar naquela cena onde fico escutando Freud e falo falo falo falo enquanto gozo e as palavras vão se engravidando até o teto como um chão de estrelas isso até me lembra a mocidade independente de padre olivácio e depois vão caindo sobre o meu corpo caindo caindo caindo e elas caem como se fossem folhas secas e me lembra outro samba da mangueira e caem caem caem e vão se alojando pelo íntimo até o mais profundo buraco das entranhas enquanto Federico alisa as minhas coxas e Baudelaire só pensando Flores do Mal Me Quer mas agora não quero ser Esfinge nem me chamo Macabea minha mãe deixou de ser Clarice e nem quero padre ou mãe que me diga o que devo ou Não fazer meu nome é Ana Beatriz e agora sou.
Tropofonia laboratório
de sons e palavras

mamãe tem orgasmos de risos quando houve camisa de Vênus, - você nunca varou a duvivier às 5 nunca transou num banheiro sujo nem nunca foi currada por animais – mamãe diz que quando cazuza canta lhe sobe um fogo pela boca do inferno Cardoso Moreira já sabia do dia da festa que o rei viria são Francisco também já sabia que estrela phode mas que o povo não phodia – salve lindo pendão que balança entre as pernas abertas da paz tua nobre sifilítica herança dos rendez-vous de impérios atrás sem papas na língua mamãe xinga o pai o filho e o espírito santo e também sabia que ao povo de campos caberia orações de padre e sermões de bispo na literatura sagrada da santíssima eucaristia tropofonia quem dera só pelas bandas de minas nas inconfidências de belo horizonte laboratórios de sons e palavras onde a lavra da palavra quero mamãe já sabia quem diria até pelas redes de peixes iemanjá também sabia que cultura por essa terra semente aqui não vingaria

Artur Gomes (Cacomanga - Campos dos Goytacazes – 1948) é poeta, ator e produtor cultural. Tem entre outros livros publicados: Couro Cru & CARNE VIVA e Brazilírica Pereira: A Traição das Metáforas, além dos inéditos: SagraNAgens Fulinaímicas e Juras Secretas. Em 2002 lançou o CD Fulinaíma Sax Blues Poesia, onde com os parceiros Naiman, Luiz Ribeiro e Reubes Pess, mistura rock, blues, baladas, reggaes e poesia, a um caldeirão de sonoridades. Atualmente coordena a Oficina Cine Vídeo Poesia no Sesc Campos - Rio de Janeiro. E-mail: fulinaima@gmail.com / Blog: http://gotacity.blogspot.com/

0 comentários:

Postar um comentário